© 2023 por Tipo Diva Blog | Orgulhosamente criado com Wix.com

  • Black Instagram Icon

Livro: O fio das Missangas

04.09.2017

Oi gente! As férias chegaram e é hora de colocar a leitura em dia porque ando muito negligente nesse aspecto :( Faz tempo que queria criar essa página com resenhas de livros que li. Ler é sempre uma ótima distração e oportunidade de viver e conhecer novas histórias. Gosto muito de ler, apesar de muitas vezes não ser muito disciplinada e nem manter uma rotina de leitura. Acabei de ler O fio das missangas  do Mia Couto que além de ser um autor ótimo, eu gosto bastante. Sabe aquelas listas de livros de vestibular que muita gente não dá bola e não gosta? Eu amava todas na época que fazia provas. Queria ler os livros das listas até de cursos que nunca prestei, como Direito na FGV e Jornalismo na Cásper Líbero. Sempre vi nas listas uma chance de aumentar minha bagagem cultural, de aprender mais e conhecer autores excelentes. Além de fazer uma leitura mais crítica e atenta (com a ajuda dos manuais para vestibular!) já que seria cobrada nas provas. Foi assim que conheci Mia Couto e me apaixonei por outro livro dele, Terra Sonâmbula. Depois que descobri que o autor é vivo, o que não é muito comum nas obras dos vestibulares (a maioria são autores defuntos mesmo hahaha), fui pesquisar sobre ele e ver entrevistas. Mia é uma pessoa que admiro muito pela delicadeza, pela forma de se expressar e admirar a fantasia, a natureza e a vida. 

O livro O fio das Missanga é composto por 29 contos os quais, na sua grande maioria, dialogam com o Universo feminino. No começo confesso que achei meio triste, principalmente porque as personagens são tão reais. Mulheres muitas vezes "condenadas a não-existência e ao esquecimento", sem autoestima, alegria ou sonhos. Alguns contos comparam mulheres com objetos materiais como se da mesma forma servissem apenas para um fim ou utilidade. Mia utilizando de maneira delicada e sutil as palavras, expõe em sua obra assuntos atuais. Ainda hoje, mulheres são tratadas como objetos, são desrespeitadas, são violadas... Ainda nega-se o direito de poderem ser, apenas o que são: mulheres. Mia dá voz as mulheres em seus livros, a narração feminina e sua disposição em se colocar nesse lugar a fim de discutir temas tão importantes, só aumenta ainda mais minha admiração. Nas palavras dele, "Eu tenho que ser tomado, essas personagens tomam posse de mim, eu tenho que ser elas. E é uma coisa que é de domínio quase da embriaguez, porque eu tenho que deixar de saber quem eu sou. É um processo de apagamento, eu tenho que saber não ser, pra dar espaço pra que essa gente seja". 

Romper com o paradigma de que delicadeza, cuidado e sensibilidade são apenas características femininas também é inovador. No conto Os machos lacrimosos, o autor conta a história de homens que se encontravam no bar "por causa de alegrias", para conversar, rir e beber. Até que um dia, um deles resolveu contar uma história triste a qual fez todos chorarem, até os mais machos! E assim Mia vai desmistificando a masculinidade. Sobre a falta de vontade de viver de uma criança em um dos contos, Mia escreve "...criancice é com amor, não se desempenha sozinha. Faltava aos pais serem filhos, juntarem-se miúdos com o miúdo. Faltava aceitarem despir a idade, desobedecer ao tempo, esquivar-se do corpo e do juízo. Esse é o milagre que um filho oferece - nascermos em outras vidas".

 

"Hoje quem passa pelo bar de Matakuane pode certificar: chorar é um abrir do peito. O pranto é o consumar de duas viagens: da lágrima para a luz e do homem para uma maior humanidade. Afinal, a pessoa não vem à luz logo em pranto? O choro não é a nossa primeira voz?". Conto: Os machos lacrimosos.

 

"Nunca quis. Nem muito, nem parte. Nunca fui eu, nem dona, nem senhora. Sempre fiquei entre o meio e a metade. Nunca passei de meios caminhos, meios desejos, meia saudade". Conto: Meia culpa, meia própria culpa.

 

"De que me adianta ter voz se só quando não falo é que me entendem? De que vale acordar se o que vivo é menos do que o que sonhei?". Conto: O menino que escrevia versos.

 

"Quanta lembrança me encostava essa mulher! Eu tivera um caso com ela, faz tempo. Mas tinha sido mais um ocaso que um caso. Não me recosturara daquela ferida. Sabem aquela misteriosa luz que parece arredondar o escuro quando apagamos todas as luzes? Pois, Florinha era essa luz. Quando fecho os olhos para me passear no passado, ela é a primeira a visitar-me. Seu corpo não é apenas a primeira memória. Ele é a porta que abre todas as restantes lembranças". Conto: O caçador de ausências.

 

Minha intenção não é fazer um análise criteriosa dos livros que leio, não tenho condições intelectuais para isso, mas tentar incentivar de alguma forma a leitura, transmitir o que sinto quando leio, o meu amor pelas palavras e poesia. Aclamar a beleza da obras de autores como o Mia e expressar minha gratidão por, a cada livro, me transformar um pouco. Por fim, deixo um trecho de uma entrevista do autor:

 

"Porque eu não sei se o ser humano tem muita essência, mas tem alguma, provavelmente, e uma das que tem é a capacidade de poder viajar pelos outros, por outras identidades. A criança que pede ao pai ou à mãe ou ao avô ou à avó que lhe conte histórias, essa necessidade absoluta, como se fosse uma necessidade de comer e de beber, de viver numa história, de se produzir a fantasia, é algo absolutamente essencial pra que nós nos constituamos como criatura. Eu acho que isso tá inscrito, é como se fosse uma coisa genética. Nós somos criaturas de histórias. Somos feitos de células, de átomos, sim, mas de histórias.”

 

Please reload

Posts Relacionados

Please reload